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A baixa produtividade das firmas brasileiras

  Fevereiro 19,2010

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Desde o fim do século passado entramos num novo ciclo da economia brasileira, com crescimento sustentado da renda das classes mais baixas. Esse fato, juntamente com a expansão do crédito, tem promovido um crescimento acelerado do consumo que, por sua vez, deverá provocar uma vigorosa expansão do PIB nos próximos anos. Entretanto, esse crescimento do consumo também poderá provocar aceleração inflacionária, obrigando o Banco Central a elevar os juros para evitá-la. Para impedir o recrudescimento da inflação, seria necessário um crescimento vigoroso da oferta de bens de consumo. Um meio de promover esse aumento seria pelo crescimento da produtividade das empresas brasileiras. Mas, será que há espaço para esse crescimento ocorrer? Como anda a produtividade das firmas brasileiras?

Na verdade, a produtividade das empresas brasileiras é muito baixa, quando comparada com firmas de países mais desenvolvidos. O gráfico mostra a produtividade do trabalho (em termos de receita por trabalhador) em alguns países do mundo, a partir de uma nova base de dados internacional de firmas (ORBIS). Ela mostra quanto cada trabalhador agrega para a receita (em dólar) das empresas nesses países. Podemos notar que existe uma diferença muito grande de produtividade entre os países chamados desenvolvidos, tais como o Reino Unido, EUA, Japão, França e Alemanha e países menos desenvolvidos como Colômbia, Brasil, Índia e China. Um trabalhador inglês, por exemplo, agrega em média cerca de três vezes mais receita para sua empresa do que o trabalhador brasileiro. Por que será que isso ocorre?

Há uma série de pesquisas mostrando que parte desse diferencial decorre de diferenças no nível de educação da população, no marco regulatório, na informalidade e no acesso ao crédito. Mas, uma série de artigos recentes, desenvolvidos principalmente pelos economistas britânicos Nicholas Bloom e John van Reenen, tem enfatizado outro aspecto, que ainda não tinha sido levado em conta: as práticas gerenciais. Segundo eles, uma parcela importante de produtividade entre os países está relacionada com diferenças na qualidade da gestão das empresas. Esses economistas desenvolveram uma técnica para medir a qualidade da gestão por meio de entrevistas com diretores de produção de empresas de diferentes países, sorteadas aleatoriamente entre todas as firmas industriais públicas e privadas que empregam entre 100 e 5 mil empregados. Nessas entrevistas, os pesquisadores (alunos de MBA) não sabem o nome das firmas e os diretores não sabem que estão sendo avaliados. Foram analisadas detalhadamente três grandes áreas de gestão: monitoramento de resultados, fixação e acompanhamento de metas e sistemas de incentivos. Já tratamos desse tema neste espaço, mas a novidade é que uma amostra de 559 firmas brasileiras foi incluída na pesquisa e seus resultados já foram tabulados.

E como se saíram as firmas brasileiras na foto? Muito mal. Entre os 17 países com empresas pesquisadas, as brasileiras estão em 13º lugar, à frente apenas das gregas, indianas e chinesas. Além disso, as empresas brasileiras vão mal em todos os quesitos, desde o monitoramento de resultados até o sistema de metas e a gestão de incentivos. As americanas foram as que obtiveram os melhores resultados em geral, seguidas pelas alemãs, japonesas, suecas e canadenses. Os autores da pesquisa mostram que essas diferenças no gerenciamento têm reflexo na produtividade e no crescimento das firmas. Fica claro, portanto, que esse é um dos fatores que explicam a baixa produtividade brasileira.

Mas, o que provoca diferenças tão grandes de práticas gerenciais entre as firmas de diferentes países? Nos Estados Unidos as empresas mal administradas não conseguem sobreviver porque a competição é muito grande. No Brasil, por outro lado, uma parcela grande de firmas mal geridas sobrevive graças a proteções tarifárias, monopólios ou subsídios governamentais. Além disso, a alta carga tributária e o baixo acesso ao crédito fazem com que o surgimento de novas empresas seja bem mais difícil por aqui, o que também diminui a concorrência.

As multinacionais têm boa gestão em qualquer país, ou seja, carregam as práticas gerenciais dos países de origem para os países de destino. As empresas familiares, especialmente as que apontam como presidente um membro da própria família, tendem a ter as piores práticas gerenciais. Um dos grandes problemas delas é a dificuldade de descentralizar as decisões. Em muitas empresas analisadas pelos autores, os donos tomam todas as decisões, mesmo as que envolvem pouco dinheiro. Assim, o crescimento fica restrito ao tempo disponível do proprietário. E, por fim, as pesquisas mostram que as empresas públicas são as que tem as piores práticas gerenciais.

Dessa forma, só com o aumento da competição, redução de tarifas de importação, redução da carga tributária, menor presença do Estado na economia e profissionalização da gestão, as firmas brasileiras conseguirão diminuir o diferencial de produtividade com relação às dos países desenvolvidos, o que permitirá que o país cresça com menos pressões inflacionárias.

Naercio Menezes Filho, professor titular - Cátedra IFB e coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper Instituto de Ensino e Pesquisa e da FEA-USP

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  • image Dessa forma, só com o aumento da competição, redução de tarifas de importação, redução da carga tributária, menor presença do Estado na economia e profissionalização da gestão, as firmas brasileiras conseguirão diminuir o diferencial de produtividade O autor nao viu o discurso da candidata a presidencia ontem... é justamente o contrário que se busca fazer no Brasil
    (Publicado em Vantuir, Fevereiro 21, 2010, 10:05 AM)
  
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